quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Enquanto uns passam fome, quem não precisa recebe o Bolsa Família

De um lado carros, piscina, motos, muros e grades nas casas. Do outro, lixo, fome, fogão a lenha, geladeira vazia e muitas dificuldades. Realidades completamente diferentes, mas com uma coisa em comum: moradores dos dois lados dizem precisar do Bolsa Família para sobreviver.
Maria de Nazaré Cardoso, 59 anos, reside na ponte do bairro Fonte Nova e tem uma filha deficiente. Na casa dela nem gás tem pra cozinhar. Ela teve o beneficio cortado há cerca de quatro meses, e conta que passa necessidades por conta disso. “Em casa eu não tenho gás e por isso estou cozinhando à lenha. Tem dias que não sei o que dar para as minhas filhas, olho pra geladeira e está vazia. Passar fome dói”, lamentou-se Maria de Nazaré.
Maria de Nazaré acredita que teve o beneficio cancelado por conta da fraude no Bolsa Família do município.”Eles estão tirando dos pobres para dar aos ricos. Enquanto nós passamos fome, eles têm de tudo, inclusive um beneficio que é para as pessoas mais carentes”, enfatizou.
Na Vila Amazonas, área nobre do município de Santana, várias famílias estão recebendo mensalmente o beneficio, que é destinado a famílias carentes. Guimar de Almeida Colares de Melo, funcionária da prefeitura de Santana, moradora da Vila Amazonas é uma das beneficiarias. Conversamos com ela, que diz não receber o beneficio, apesar da documentação da caixa comprovar que ela recebe. “Eu não recebo o bolsa família. Sou funcionária da prefeitura de Santana e o meu marido também é empregado de uma grande empresa”, disse Guimar, muito tensa.
A senhora Maria Onilde Castro, que também reside na Vila Amazonas, consta na lista dos beneficiários do Bolsa Família. “Eu recebia o Bolsa Família, cerca de 50 reais mensalmente era depositado em minha conta”, confirmou Maria, que reside em uma casa de classe média na Vila.
Mas enquanto alguns mesmo diante de provas negam receber o beneficio, o pai de Naama da Silva Guedes, moradora da Vila Amazonas, confirma que a filha é beneficiária do programa. “Minha filha recebe todos os meses cerca de 120 reais do Bolsa Família”, informou o pai de Naama.

Prefeito de Santana beneficia assessores com Bolsa família

O atual prefeito de Santana Antonio Nogueira, além de beneficiar o irmão Antonio Sérgio Nogueira, proprietário de uma movelaria, e o pai do secretário especial de governo e articulação institucional da prefeitura, com o Bolsa Família, também está beneficiando diversos assessores executivos com salários acima de 1.500 reais e moradores da Vila Amazonas. O prefeito confessou perante a justiça, que o irmão dele e o pai do secretário são carentes e “se enquadram sim, no perfil de pessoas que necessitam receber o beneficio para sobreviver”.
Clei Wilton Pereira Pacheco, assessor executivo da prefeitura de Santana, recebe R$ 1.518.66 mensalmente, é beneficiário do Bolsa Família. O valor de seu salário (R$ 1.518.56) dividido entre os quatro membros de sua família dá R$379.64, mas para se encaixar no perfil de beneficiário a renda familiar tem que ser no maxímo R$ 120,00 e não 379 reais, como é o caso do assessor executivo.
Elisangela Lima Pinheiro, assessora executiva da Prefeitura de Santana, também recebe R$ 1.518.66 mensalmente e é beneficiaria do programa destinado a famílias carentes. O salário dela (R$ 1.518.66), dividido por seis pessoas como está no cadastro do programa, dá R$ 253.11, também muito longe da margem permitida para ser beneficiada.
Elilde Pereira Dias recebe todos os meses da prefeitura de Santana, R$ 1.518.66, por ocupar o cargo de assessora executiva. Ela também recebe o Bolsa Família. No cadastro preenchido por Elilde junto ao programa, consta que residem em sua casa três pessoas, que necessitam do beneficio para sobreviver, porém o salário de R$ 1.518.66, dividido pelas três pessoas é igual a R$ 506,22 por pessoa, também fora do perfil de família carente.
Além de Elisangela, Elilde e Clei, Wanise Telles da Silva também ocupa o cargo de assessora executiva na Prefeitura de Santana, com um salário de R$ 1.518.66. Ela recebe todos os meses o beneficio. Wanise, ao preencher o cadastro do Bolsa Família disse ser carente e ter em sua residência cinco pessoas, incluindo-a nessa lista. Se o seu salário de R$ 1.518.66 for divido, como é feito pelo programa, dá R$ 303.72, o que garante que ela não necessita de ajuda do governo federal para sobreviver.